Verbetes

Começo

Posted on: março 14, 2008

Fico muito puta quando descubro tarde certas evidências que tornam a vida mais simples. A bola da vez são duas:

1. Quanto mais você se expõe, mais está sujeito a julgamentos. Fica-se menos livre para cometer certos pequenos e deliciosos crimes que fazem de nós pessoas mais originais;
2. Sendo a virtualização nossa capacidade de multiplicar possíveis, o certo não é virtualizar apenas a máquina (embora isto cause repercussões na vida cotidiana), mas virtualizar os sentimentos, causar possíveis.

Pois bem. Desfiz um tanto de percursos internéticos. Hoje minha vida resume-se em três contas de email, um blog para vôos literários, um lugar para armazenar fotos e vídeos e este blog para soltar os bichos e não estragar o outro de pretensões literárias. Só que o que adianta estar de acordo com a evidência número 1 se eu não pratico a 2? Pois o que elas resumem é: pratique mais os seus sonhos! Sinto-me encurralada: desempregada, tentando me recauchutar profissionalmente sob a generosidade da minha mãe que me chega como uma dívida de realização profissional e ainda tendo que viver intensamente? Como, se uma coisa depende da outra? Em suma, para viver intensamente preciso de dinheiro!!!

Ou não… Alguns poucos reais, em que a gente vai até a esquina e compra duas doses de uísque (esconde numa garrafinha de guaraná) e dois cigarros picados… Vai para casa estudar as relações de Charlie Kaufman e Lacan… Passa pela cozinha e enche uma xícara de café bem quentinha… Tranca a porta do quarto e se diverte a valer cometendo pequenas transgressões! Nas horas vagas e nas horas nem tão vazias, você pára para se contemplar já que está em pleno exercício de solidão. Chega a conclusão que se não escreveu um livro até os trinta anos talvez seja melhor tratar com carinho um blog… Pelo menos duas pessoas o lerão. E se concentra em crescer definitivamente e entrar na fila dos bois a caminho do matadouro. (mas meu sonho não era ser uma espécie de fracassada de sucesso? O bom é que escolhi uma profissão que me permite um caminho para aprender a lidar com paradoxos).

Não é tão ruim se você pode se trancar dentro de um quarto vez em quando e beber e fumar escondido. Escutar uma musiquinha, lembrar de um amigo… Ontem eu disse a mim mesma que hoje daria minha cara a tapa na aula. Desisti, chove lá fora, quero ficar comigo. Quero me eternizar aqui, meio embriagada, fedida de nicotina, esperando a discografia da Janis Joplin terminar de baixar para que eu possa lembrar o tempo em que eu era uma garota ingênua (talvez ainda seja, me apaixonei ano passado por um cara que quando queria transar pedia pra eu “tirar a roupinha” e fazia cara de coelhinho quando dizia não – melhor não me gabar de maturidade)…

Tomando coragem de começar a sexta-feira já no fim do dia… E que se foda! Nasce assim esse blog, regado – que exagero! Só duas doses. – a uísque. Eu sei. É meio contraditório com as evidências citadas aí em cima. Mas eu sou contraditória. Não tem jeito!

Ninguém se pergunta por que nas inaugurações quebra-se uma garrafa de champagne. Pelo menos nos desenhos animados da minha infância era privilégio da mocinha quebrar uma garrafa no casco do navio… Eu achava lindo! Mickey, Donald e Pateta trabalhando duro na construção do navio e aí vem a Miney ou a Margarida (não lembro) com a garrafa para inaugurar o feito dos machos. Vale a pena lembrar que a garrafa não se quebrava e o barco desmoronava, graças à pateguice dos três.

E também ninguém questiona porque tanto champagne acaba sendo desperdiçado quando se estoura uma garrafa numa comemoração. Ou porque se coloca tão pouco numa taça. É uma bebida cara! E talvez por isso seja chique o seu desperdício. Pois o luxo é uma espécie de excesso, não? Algo que transborda. Quando penso na palavra luxo e glamour, sempre me vem à mente plumas, paetês, espuma e bolhas. Então acho que champagne é chique embora seja feito para se consumir pouco e desperdiçar muito.

Não creio em nenhum alcoólatra ou bom bebedor, no entanto, quebrando uma garrafa de uísque para inaugurar alguma coisa. Nem tampouco uma dose transbordando em um copo (salvo quando meia garrafa já foi consumida, mas aí já é uma questão involuntária de perda das capacidades motoras). Pelo contrário, on the rocks ou cowboy, duplo ou com gelo de água de coco (versão latina), com guaraná (para iniciantes e damas de cabaré) o uísque é algo que não é feito para se desperdiçar. Tem algo de ínfimo e monstruoso… Um jardim selvagem é o que ele rega!

“E depois do começo o que vier vai começar a ser o fim.” Legião Urbana.

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A vida é um carrossel de significados…

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— Daniela é assim como um jardim selvagem — disse tio Ed olhando para o teto. Como um jardim selvagem... Tia Pombinha concordou fazendo uma cara muito esperta. (...) Mas, e um jardim selvagem? O que era um jardim selvagem? Foi o que lhe perguntei. Ele me olhou com um ar de gigante da montanha falando com a formiguinha. — Jardim selvagem é um jardim selvagem, menina. — Ah, bom ! eu disse”. Lígia Fagundes Telles - O jardim selvagem. In Antes do Baile Verde.

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