Verbetes

Dialética

Posted on: março 21, 2008

Confesso uma coisa da qual me envergonho. Mas vou confessar para ver se mato a vergonha. Para ver se alcanço certa humanidade, que nunca é demais… E é humano se envergonhar de sua doença. E é doença sentir prazer fora do que se convencionou bom. Pois bem. Sinto prazer na covardia, nas fugas da minha imaginação e já pensei que deve ser bom ser uma freira e ficar livre dos imperativos do corpo. É bem platônico, eu sei. E isso não é bom porque é tão platônico que não se realiza também… O corpo, sabe? O demônio é a segunda parte que instaura o caos. Eu gosto também, na medida que serve para não fazer da vida um tédio. Mas tem uma medida para essas paixões. Medidas. Queria estar livre delas. Livre das medidas da alma e do corpo.
Por exemplo: amor é se colocar em ameaça, eu diria. Alguém te dá respostas, o mundo parece fazer sentido por instantes, você até pode negligenciar o acaso… O amor te dá um castelo. Mas você sabe que seus alicerces são incertos, pois um rio mais profundo que o mar passa por debaixo dele ameaçando sua estrutura. Então, o amor te dá um castelo e você passa a estar em perigo. Pilhas de tijolos podem cair sobre sua cabeça, coisas inanimadas ganham vida… Daí, às vezes, melhor não ter nada a perder e ser um monstro egoísta, como um passarinho que tudo quanto faz é voar e descansar.
Isso é o melhor… E mesmo assim insuficiente. Porque chega uma hora do dia que você se acha grande demais para ser só um passarinho. E tem uma certeza de que aproveita a vida menos do que poderia. Mas o pior disso tudo é não encontrar respostas no mundo, se lançar nele e encontrar apenas um asfalto negro cercado por postes padronizados. Onde foram parar os jardins? Nada começa. A nossa contemporaneidade (que ainda não sabemos como chamá-la – vide os neo, pós, hiper [etc] modernismos) nos roubou o fim, a morte…
É bom estar sozinha com alguns livros. Eles são tijolos de uma espécie de castelo de borracha. E você fica lá retocando sua torre e contemplando seu feito, ainda que tenha certa piedade de sua solidão. Mas piedade também é uma forma de amor, não? Masoquista e medieval, mas é.
O importante é ser livre, livre para ser infeliz. Só não quero perder isso. Tenho medo que o mundo, a vida, o destino, me tome isso. Eu sei, fico desesperada quando sinto dor. Mas é assim que acredito que tem que ser. Antes descer ao inferno do que destilar veneno. Uma víbora só se aproxima de outras víboras. E eu gosto do estrago e das combinações inesperadas.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

A vida é um carrossel de significados…

template

— Daniela é assim como um jardim selvagem — disse tio Ed olhando para o teto. Como um jardim selvagem... Tia Pombinha concordou fazendo uma cara muito esperta. (...) Mas, e um jardim selvagem? O que era um jardim selvagem? Foi o que lhe perguntei. Ele me olhou com um ar de gigante da montanha falando com a formiguinha. — Jardim selvagem é um jardim selvagem, menina. — Ah, bom ! eu disse”. Lígia Fagundes Telles - O jardim selvagem. In Antes do Baile Verde.

Por letras

Registro

Creative Commons License Verbetes by Daniela Mendes is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License. Based on a work at verbetes.wordpress.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at https://verbetes.wordpress.com/.

Folow me

%d blogueiros gostam disto: