Verbetes

Lispecções

Posted on: março 22, 2008

Lispecção: s.f. corresponde ao ato de definir sentimentos com precisão anímica; forma apurada de comunicação embebida de poesia. Alguns exemplos:

Animosidade

O que seria então aquela sensação de força contida, pronta para rebentar em violência, aquela sede de empregá-la de olhos fechados, inteira, com a segurança irrefletida de uma fera? Não era no mal apenas que alguém podia respirar sem medo, aceitando o ar e os plenos pulmões? Nem o prazer me daria tanto prazer quanto o mal, pensava ela surpreendida.

Modelagem

Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem eu sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é o que sinto mas o que eu digo.

Elucubração

– O que é que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana. (…) – Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? – repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a surpresa.
– Que idéia! Acho que não sei o que você quer dizer, que idéia! Faça a mesma pergunta com outras palavras…
– Ser feliz é para se conseguir o quê?
A professora enrubesceu – nunca se sabia dizer por que ela avermelhava. Notou toda a turma, mandou-a dispersar para o recreio.

Meticulosidade

– Quem se recusa o prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, é porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa – daí um temor maior ainda. Só quem guarda as armas a chave é quem receia atirar sobre todos.
– Sim…
– Eu disse: quem se recusa… Porque há os… os planos, os feitos de terra que sem adubo nunca florescerá.

Anelo

– Gosto. Mas eu nunca sei o que fazer das pessoas ou das coisas de que eu gosto, elas chegam a me pesar, desde pequena. (…) eu não trago paz a ninguém (…)

*Todos os textos: Perto do coração Selvagem. Clarice Lispector.

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A vida é um carrossel de significados…

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— Daniela é assim como um jardim selvagem — disse tio Ed olhando para o teto. Como um jardim selvagem... Tia Pombinha concordou fazendo uma cara muito esperta. (...) Mas, e um jardim selvagem? O que era um jardim selvagem? Foi o que lhe perguntei. Ele me olhou com um ar de gigante da montanha falando com a formiguinha. — Jardim selvagem é um jardim selvagem, menina. — Ah, bom ! eu disse”. Lígia Fagundes Telles - O jardim selvagem. In Antes do Baile Verde.

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